domingo, 12 de fevereiro de 2012

Gordinha.

Essa semana tomei coragem e me pesei. Tomei um susto e comecei a controlar minha alimentação. É impublicável e doloroso o número que aparece na balança. Sou bonita, desejada, bem vestida e tenho bom gosto, mas estou bolotão, é fato.
Conversando sobre dieta com um amigo, ele me disse que também pisou na balança há pouco tempo e confessou seu peso. Exatamente o mesmo que o meu. Fiquei em silêncio, com vergonha de dizer: "Igual!" e só sorri e o abracei. Momento de coragem pra ele e de vergonha pra mim.
Minha relação com o peso nunca foi tranquila. Desde novinha minha mãe me repreende por comer demais. De biquini nunca fiquei avontade, mas não deixo de ir a praia. Fico avontade nua, mas de roupa... A barriga incomoda, a perna é grossa demais e o rosto constantemente sai monstruoso em fotografias.
Tenho sentido algumas dores atrás do joelho, não sei se é alguma coisa séria. Há tempos não vou ao médico. Sonho em ser magra, mas acho que seria consideravelmente mais feliz se me aceitasse assim. No entanto, sei que o padrão do mundo a que pertenço é outro. Meu namorado me acha linda, inteira, sem tirar nada. Queria pensar como ele.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

As pessoas mais especiais do Brasil

Estive em São Paulo na semana passada para fazer entrevistas com perseguidos políticos do período da Ditadura que moram lá. Uma das entrevistadas nos disse que tem a sensação de que as pessoas mais especiais que existem estavam presas junto com ela. É fato, durante esse trabalho, que vai terminar agora em março, percebi que esses homens e mulheres cheios de ideologia e força são uma das coisas mais bonitas que o Brasil pode ostentar. É evidente que ainda existe gente desapegada e engajada em grandes causas, mas as circunstâncias, nós sabemos, são menos propícias. Vejo com indignação e tristeza o que está acontecendo em Pinheirinho, mas não posso parar minha vida para protestar. A TV Globo e o seu conservadorismo impiedoso me deixa cheia de vontade de gritar, mas o máximo que eu fiz foi me recusar a assistir essa edição do Big Brother em razão da falta de sinceridade com que o caso do abuso sexual ocorrido no programa foi tratado. Não vejo a Globo como um grande bloco de porcaria, acho que lá dentro existem pessoas merda e pessoas legais e a consequencia disso é uma programação bastante variada. Que eles foram beneficiados pela Ditadura todos sabemos, mas não vou deixar de assistir novela por causa disso.
Entrevistamos também uma mulher que esteve presa junto com a Dilma e ela nos contou que recentemente, no dia em que a Comissão da Verdade foi aprovada, todas as presas daquela cela se reencontraram. Me lembrei de Dilma Vana no dia de sua posse, andando sozinha rumo ao planalto e pensei na foto recentemente publicada em que ela olha valente para a frente e seus torturadores escondem os rostos com as mãos. Me emocionei. Tenho orgulho de ter votado nela.
Tivemos também a oportunidade de conversar com Clara Charf, viúva de Carlos Marighella, que aos 86 anos, está mais lúcida do que a minha avó de 78 foi a vida inteira. Saí de lá me perguntando o que determina que essa mulher tenha sido e se mantenha tão consciente e que a minha avó nunca tenha nem querido sair da caverna. É recorrente na minha imaginação a imagem da sala de jantar, com uma mesa enorme e várias pessoas sentadas, penteadas e bem vestidas, ocupadas em nascer e morrer. Entre elas está minha avó. Entre elas estou eu.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O não casamento.

Duas amigas da época de escola vão se casar esse ano. Um amigo da faculdade também vai. Todos farão festa. Vou ser madrinha de uma das meninas e pra isso terei que usar vestido longo. Não poderei repetir o figurino das outras duas vezes que apadrinhei matrimônios porque dessa vez o casório será de dia e a indumentária não pode ter brilho.
Terei que emagrecer porque vestido longo em gordinha não fica legal. Vi hoje um penteado bonito em uma revista antiga, que consiste em um rabo de cavalo com trança e uma mecha solta. Fica lindo, mas eu preciso deixar o cabelo crescer e permanecer loira. Gosto de mim loira, mas fico chateada em gastar uma fortuna pra retocar a tinta a cada dois meses.
Acho vestido de noiva um sonho. Adoro festança, marcha nupcial e docinhos confeitados. Acho cafona a parte da família distante ali presente, mãe da noiva de braço dado com pai do noivo, etc. Mas os amigos dançando felizes e alcoolizados me parece encantador.
No entanto, tenho clareza de que nada disso é pra mim. Não ganho bem o suficiente pra pagar o evento e minha família, como vocês sabem, não gosta de protocolos. Meu pai e minha mãe nunca investiriam em me ver de véu e grinalda porque eles mesmos não quiseram nada disso, casaram no civil e foram almoçar. Eu é que sou a brega da história e gosto de pompa e circunstância.
Mas meu namorado é igual aos meus pais e ao Raul Seixas, acha tudo isso um saco. Ele, muito menos, daria dinheiro pra esse tipo de futilidade.
Acredito que quando estamos apaixonados a ponto de decidirmos nos unir efetivamente, dividir a alegria com o mundo é importante. Mas não sei se a pessoa que eu amo está disposta a conciliar objetivos e aparecer em fotos.
Essa certamente será uma frustração que eu levarei para sempre.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Coisas que aprendi no reveilon em Maromba

Formigas assustam

Cachaça com mel e queijo minas meia cura antes de entrar na cachoeira faz muito bem

Se está lá, truta é a melhor opção

A meia noite do dia 31 dormindo ao lado de quem eu amo é mais bonita do que qualquer Copacabana

Água gelada limpa mais do que sabonete

Comprar presentes para a família é furada

A MTV se recuperou do Reestart

Paulistas ricos podem ser muito chatos

Estar de carro faz diferença sim

Maringá é uma delícia, mas Maromba é mais perto da natureza e é isso que faz diferença no fim das contas

A chuva potencializa o amor, vontade de fazer xixi a noite não.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Calendário da Copa do Mundo.

Ontem fui jantar com dois grandes amigos. Enquanto comíamos, um deles comentou sobre a intenção do governo do estado em modificar o calendário letivo em 2014 com o objetivo de transferir as férias de um mês de janeiro para julho. Fui taxativa em afirmar que sou contra. Me indagaram por que razão e eu falei apenas que não acho justo que a minha vida seja desestruturada em razão de um evento que não foi escolhido por mim. Um deles retrucou dizendo que o meu empregador escolheu e que eu tenho que ter disponibilidade para obedecer e lidar com mudanças. O assunto acabou deixando um ar desagradável entre nós por algum tempo.
Fiquei com isso na cabeça. Expliquei a situação a minha mãe, que não só concordou com o meu amigo, como acrescentou que "quem sou eu para discordar do meu empregador?" e disse que na vida nós temos que acatar as ordens que nos são dadas e blá blá blá.
Aprendi sozinha que a opinião de mamãe não é exatamente correta, pois vocês sabem bem que eu optei por não fazer greve para não entrar em conflitos com o meu empregador, e quando o mesmo teve a oportunidade de retribuir a minha lealdade, permitindo que eu me ausentasse por duas semanas por conta dos estudos para a seleção de mestrado, quase fui desligada do emprego. Com isso entendi que se eu discordar, não devo ter problemas em expressar minha opinião e agir de forma consonante a dos meus colegas, pois eles não deixarão de exercer o papel castrador que lhes cabe por consideração a mim.
Não sou contrária a Copa do Mundo. Pelo contrário, me emociono muito a cada quatro anos torcendo para os países com os quais simpatizo, como Argentina, Portugal, Uruguai, Gana, etc. Não entendo nada de futebol, então torço pra quem acho que merece ganhar, embora saiba que não é assim que a coisa funciona. Mas acho importante e bela a integração que a Copa proporciona e, longe de mim, me opor ao evento.
O que ocorre é que me parece injusto que seja prolongada a presença de alunos e professores na escola no verão (e no Rio o verão não é ameno), para que no inverno, com a maior das atrações ocorrendo por todo o território nacional, o que tornará os preços das passagens, aéreas e rodoviárias, exorbitantes e impedirá que nós façamos viajens normais. Outros setores terão folgas localizadas durante esses dias, mas garantirão o seu recesso em algum outro momento. Além disso tem a lama toda na qual o nosso governador está inserido, o que não me permite confiar nele ou colaborar com os seus designos de forma tranquila.
Por outro lado, acredito que não posso ser egoísta e, se de fato me for imposto esse calendário, obedecerei e mesmo se tiver que ver os jogos pela televisão, me emocionarei.
Não quero ser intransigente, nem perder a ternura.

domingo, 25 de dezembro de 2011

manhã de Natal

Não está sol. Mamãe sai pra caminhar bem cedo. A cachorra chora. As rabanadas têm gosto de queimado. Durmo mais. Acordo e ligo o computador, várias mensagens de fraternidade e alegria. Leio o jornal, nada demais. Durmo de novo. Vovó está com gripe e não sai do quarto. Alimentamos a cachorra, que dorme com cara de desânimo.
O apartamento é novo, todo branco, com vazamentos. Vê-se a praia da janela, mas ir a praia não parece boa ideia porque não há assunto entre nós. Os colchões estão no chão da sala. Mamãe não sabe o que fazer com esse lugar. Os enfeites rústicos não combinam com o design clean. Ela está visivelmente frustrada e arrependida, queria ter comprado alguma coisa na Zona Sul. Quando ela teve dinheiro pra adquirir um imóvel em Copacabana por um preço bom, eu, que tinha 18 anos, a desencorajei porque gostava da Tijuca. Culpa eterna. Decidiu investir na Barra. A toa.
Interrompo o silêncio dizendo que vou comer queijo. Chamamos minha avó e então todas estão sentadas a mesa. Um principio de conversa se inícia. Minha irmã, no entanto, sem paciência nenhuma para confraternizar, se retira para preencher palavras cruzadas, mamãe sai pra ler mais um dos livros da Martha Medeiros que ela não termina e restamos eu e vovó, que me pergunta pela terceira vez o que vou fazer no ano-novo.
É meio dia. Não tem almoço. A comida de ontem não apetece. Alguém liga a televisão e vê um programa porcaria de domingo, onde toca Kenny G e uma banda de três irmãos feiosos, que fez sucesso há alguns anos, aparece cantando "Olhar 43" do RPM. Algumas mensagens de amor chegam pelo celular. Infeliz Natal.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Odeio Natal.

Natal pra mim significa tudo o que eu sempre quis ter e não pude. Minha mãe não se dá bem com a família dela, então sempre passamos sozinhas. Minha avó, que se dá bem com a própria família, as vezes vem ficar com a gente, visivelmente contrariada por estar longe dos próprios irmãos e sobrinhos. Minha mãe e minha avó são pão duras envergonhadas e isso é a pior coisa porque tudo o que elas fazem sai pela metade. Tem bacalhau, mas não é gostoso, tem bolo sem recheio e arroz sem sal. Mamãe ri da oração de vovó antes do jantar, fingimos suportar a comida insossa e a falta de assunto. Eu tenho raiva de mamãe, que tem raiva de vovó, que também tem raiva de mamãe. Minha irmã e a cachorra não têm raiva de ninguém. As dez horas a mesa já está retirada e todas assistimos Zorra Total.
Quando eramos crianças, papai tinha uma namorada cuja família comemorava o Natal e ele sempre nos levava. Minha irmã detestava, mas eu tinha muita disposição pra me introsar. Abraçava parentes que não eram meus e ganhava presentes no amigo oculto de desconhecidos. A casa ficava cheia e as vezes tinhamos que dormir na varanda. Eu adorava.
Depois papai se separou e nós começamos a ir pra casa do meu tio nessa data que existe pra ser feliz. Eram natais sinceros. Quando íamos para Corumbá, onde moram minhas tias paternas, também era bom e as comidas insuperáveis, mas o calor que faz no Centro Oeste em dezembro e o preço alto da passagem, além da dificuldade de acesso a capital do Pantanal, que nos faz ter que viajar com escravos bolivianos, desanimam.
Já passamos o Natal com a família da nova mulher do meu pai. Tudo lindo, mas não tenho mais disponibilidade para desconhecidos pouco interessantes. Acho tudo um saco. Ficamos com mamãe, portanto, e olha, como é ruim! Sinto vontade de ter uma família feliz, que se abrace e troque presentes, com comidas gostosas e assuntos infindáveis, mas aqui em casa é o contrário. Sei que é uma data construída, mas gostaria de fazer parte do espírito de união que ela propõe. Sou recalcada por não ter nada disso.
É provável que eu não tenha filhos, que não me case nos moldes tradicionais e que essa data seja sempre essa grande merda. Triste.